Ariano Cavalcanti de Paula *
Nesse momento de instabilidade financeira internacional, não tenho a pretensão de traçar cenários, apenas jogar um pouco de luz naquilo que é real e de fácil comprovação. Talvez assim possamos agir com mais segurança e objetividade. Nesse caso, a sugestão do momento talvez seja a de especular. Sim, especular, que, segundo o Aurélio, significa "comprar e vender (mercadorias, títulos etc.) buscando ganhos a partir da oscilação dos preços e correndo o risco de perdas". Lembrando que o risco de perdas é minimizado quando compramos num momento de crise. E aí vale uma consideração: em chinês, crise e oportunidade se complementam numa mesma palavra.
Se ainda não é possível dimensionar todas as conseqüências sobre o mercado imobiliário, pelo menos é viável considerar alguns fundamentos muito relevantes. Em primeiro lugar, a crise não acaba com toda a demanda, que permanece reprimida, pois o mundo real é altamente demandante de habitação. Precisamos é capacitar essa procura para convertê-la em negócios, sendo necessários, para isso, os financiamentos.
Os recursos para o financiamento imobiliário permanecem abundantes: neste ano, deve atingir R$ 41 bilhões, um crescimento de 63% em relação a 2007. Realmente, houve uma elevação dos juros, que tende a ser transitória, mas os financiamentos continuam ofertados. Por serem originados pelo FGTS e pela poupança, os recursos para financiamento imobiliário têm uma equação própria e, de certa forma, à parte do vetor da crise.
Outro aspecto importante é que o financiamento total brasileiro não passa dos 3% do PIB, o que é muito inferior se comparado a outros países em desenvolvimento. Também é importante observar que, embora tenha ocorrido uma recuperação dos preços médios, o deságio entre o imóvel novo e o usado continua grande, o que mostra espaço para valorização e uma boa oportunidade de investimento.
Nesse cenário, uma questão que surge é se, realmente o Brasil vive um “boom” imobiliário. Os dados da pesquisa baseada nas guias do ITBI, feita pelo Ipead e Secovi-MG, mostram que houve crescimento de apenas 16,20% no total das transações em BH nos últimos quatro anos. A venda de unidades novas (lançamentos) cresceu muito, 61,06% de 2006 para 2007. No entanto, esse percentual traduz um crescimento em números absolutos de 2.062 para 3.321 unidades vendidas por ano, o que resulta em menos de 300 unidades por mês. Ora, seria apropriado acatarmos esses números como "boom"? Isso significa que o ciclo virtuoso do mercado imobiliário brasileiro (exilado por mais de 20 anos) está apenas começando. O soluço dessa crise atrapalha, mas não muda os fundamentos e as boas perspectivas.
Durante todas as crises pelas quais nós, brasileiros, passamos nas últimas décadas, o porto seguro sempre foi o ativo real, ou seja, sobretudo o imóvel. Isso sem falar que, em termos patrimoniais, o imóvel teve uma das melhores performances na história econômica brasileira. Creio que a lição que fica (o tempo nos dirá) é a de que o imóvel continua sendo uma excelente estratégia patrimonial. Boa sorte a todos.
*Presidente do Sindicato das Empresas do Mercado Imobiliário de Minas Gerais (Secovi-MG)
Fonte: Revista Foco Imobiliário, ano 2, n° 10, novembro 2008. Pág. 2